11.9.06

Diário de Ester #2 Os grupos

Eu fico observando esse pessoal e não entendo... gente esquisita essa do ensino médio. Os homens sempre sérios, mas em grupos... e conversam pouco. As mulheres também em grupos, com assuntos de todo o tipo em voz alta. E vez ou outra uma delas olha para os homens do outro lado do pátio e dão uma risada "p'ra dentro".

As vezes um deles se desprende dos demais e se aproxima entre elas. Não dá p'ra ouvir direito... mas vejo bem os gestos. Ao chegar perto de uma delas, cochicha algo e aponta p'ros demais... e na maioria das vezes elas balançam a cabeça dizendo "não". O que ele pediu? Porque ela negou?

Já os homens ficam fazendo cara de mau... coçando o pinto toda hora e olhando com rabo de olho p'ras mulheres. Pôxa, porque coçam tanto? Será sarna? Ou micose? Ou assadura? Puxa.... deve ser... Luck Jr. quando completou um ano semana passada teve crise de assaduras nas virilhas. Foi engraçado ver meu pai cuidar dele nas noites enquanto minha mãe ainda trabalhava.

Não entendo mesmo esse pessoal do ensino médio. Nos chamam de fundamentais... mas não enxergam que existem algo superior.

8.9.06

"Pés de agulha"

Desde quando criança, incorporamos em nossas almas muitos tiques e manias. O que leva uma criança a chupar o dedo e colocar a mão na orelha? Fazer bico quando está concentrado e escrevendo no caderno? Aos adultos também não é diferente. Quantas vezes já observamos uma pessoa de cabelos cumpridos enrolando algum cacho nos dedos enquanto pensativa? Ou estalar os dedos enquanto nervosa? Estremecer a cabeça enquanto está distraído ou prestando atenção em algo?

Não faço a menor idéia de como explicar porque isso acontece. Acredito que a pessoa adquire essas manias por sentir-se bem, por vício ou por aprender com a vida. Algumas dessas manias são interessantes. Algumas eternas. Algumas até descrevem o jeito sapeca de uma pessoa.

Sei que esses tiques e manias caracterizam uma pessoa. E você passa a gostar, a conviver e até sentir saudades... sim, com o tempo, uma dessas manias que você achava totalmente estranha se incorpora em sua vida de tal maneira que a ausência te leva a momentos de pura nostalgia. Algumas pessoas realmente marcam por possuírem manias bem curiosas.

Provavelmente eu devo ter algumas... só não sei se agradam/agradaram aos que estão ou estavam comigo.

6.9.06

Floydjeco!

"É sempre a mesma coisa. Tem toda pressa pelas manhãs, não coloca direito a minha comida, me dá uns tapinhas na cabeça e diz com a voz mais doce do mundo – Tchau Floyd!

Meu trabalho é cuidar da casa, ficando em lugares altos porque a Julie ainda é muito criança, só pensa em brincar e não pára quieta. Agora ele chega, tarde da noite, com essa mochila enorme. Mas nunca tira uma ração pra mim. Pega um monte de papel e fica sentado diante de uma tela luminosa apertando esses montes de quadradinhos que afundam. Deve ser divertido, ficar olhando pra essa luz confusa balançando os dedos até tarde.

Oba! Vou aproveitar que ele se levantou e foi pra cozinha. Como de costume, nunca me chama pra jantar, mas tudo bem. Não deve ser difícil entender o que tanto ele mexe aqui... humanos entende, porque gatos não entenderiam? Hm... essas pecinhas pequenas... hmm... algumas maiores que as outras... tem essa outra comprida... hihihi... barulhinhos... divertido ficar aqui...

Ops! Ele vem vindo... vou voltar pro meu canto. Não vou demonstrar que sou tão esperto pra fazer as mesmas coisas que ele.

Hihi... agora ele vai ver o que eu também fiz!"

- Froooidiuuuuuuu!!!

4.9.06

Se não foi sonho, foi bem real

Vi uma criança serelepe, bem pequena ainda, brincando no jardim. De repente ela tropeça e se machuca. Olhou pro seu bracinho e vê aquele arranhão. Segurando o choro, com os olhos cheios d'água foi ao encontro de seu pai, que estava ao telefone tratando de negócios importantes.

Vendo que o pai não parava de falar ao telefone, puxava a barra da calça a fim de chamar atenção. O pai olhou pra baixo, vendo a cena se compadeceu de seu filho. Pegou o bracinho do pequenino e deu um leve assopro, aliviando naquele momento a dor da ferida. Foi então que o menininho abriu um largo sorriso, ainda mostrando os dentes nascendo, e deixou escorrer uma lágrima sobre seu rosto.

2.9.06

Olhos de paz

Eu não sei como, mas vem acontecendo algo bem legal ultimamente. Cada vez mais acredito que Deus escreve certo em linhas tortas. Ultimamente ando conversando com minha mãe. Sim, não conversávamos ha tempos.

Ela não fala de problemas nenhum e eu não peço p’ra ela parar de falar. São conversas rápidas, mas suaves, que me trazem paz. Eu olho p’ros olhinhos da minha mãe e vejo que ela sente falta disso, de conversar com seu filho. De certa forma eu sinto muita falta de conversar com ela também. E vem sempre acontecendo isso. “Conversando sobre coisas da vida e tendo um momento de paz”.

Não entramos no assunto que eu mais queria. E nem precisamos. Ela já me responde com os olhos. Me traz conforto. É bom ver minha mãe sorrindo e concordando comigo em certos assuntos.

Se você tem/teve atritos constante com sua mãe. Mesmo que você não diga nada, quando ela estiver falando, tente observar o que dizem os olhos dela.

1.9.06

Belo gesto...

Andando na rua, já tarde da noite voltando pra casa, vi uma senhora cobrindo com um cobertor um morador de rua, numa dessas clássicas esquinas escuras. A princípio pensei que esta estava acudindo a pessoa, achei que estava passando mal ou até mesmo morrendo. Parei pra observar e até mesmo ajudar em qualquer coisa.

Depois de cobrir com o cobertor, fiquei mais calmo, parado, observando o belo gesto da senhora. - Tratam como marginais - disse. E caminhando pela rua, foi seguindo meus passos. Falamos sobre a situação e no fim segui meu caminho enquanto ela entrou em sua residência.

Pensei. Foi caridade? Compaixão? Mais que a obrigação?
Enfim, concluí que se as pessoas fizerem mais gestos como esse, impulsionadas pelo sentimento que for, então acreditar e esperar não morrerão.

30.8.06

Qual é a cura?

Dúvida de um marinheiro de primeira viagem.

Já fiz de tudo.
Já escutei música alta.
Já saí com os amigos.
Já pensei em ficar com alguém.
Já já enchi a cara.
Já chorei, e ainda choro, muito.
Já ocupei sempre a minha mente com algo.
Já procurei novas amizades.
Já conversei.
Já ouvi muitos conselhos.
Já implorei.
Já olhei pra baixo.
Já olhei pra cima.
Já fiquei olhando o nada.
Já limpei minha mente pra não pensar.
Já me dei conta que arrependi pelos meus erros.
Já orei.
Já pedi a Deus.

Qual é a cura... p'ra dor da perda de um grande amor?

29.8.06

Onde há luz...

Bem recente, rápido e, as vezes, na calada da noite. Foi como se uma sombra passasse sobre mim. Tive que identificar os detalhes, os sinais. Talvez em forma de sonhos... talvez.

Sonhei com coisas estranhas, sonhei com nuvens, borracha de capa azul, desenhos que fiz a muito tempo, pizzas com mostarda, monte silencioso e até mesmo com minha própria filha que nem gerada ainda foi.

Tentei olhar p’ros acontecimentos do cotidiano, mas acho que piorou. Fiquei sabendo que meu planeta regente foi rebaixado para planeta anão. Talvez seja isso... não... talvez não. Prefiro Saturno e seus anéis, mas dizem que os homens são de Marte.

Marte.
Arremate.
Mate.
Amar.
Amortece.
A morte.

Sensações estranhas... que se foram... rondaram-me, mas Ele é bem mais forte. Contemplo e vislumbro a luz que me cerca. Mas que sinal foi este que pressenti? Ainda não obtive respostas.

Hoje tive uma avaliação. Tomei vergonha na cara e entrei numa papelaria, da própria universidade, e pedi umas coisas. Eis que a atendente coloca em cima do balcão uma borracha de capa azul.

25.8.06

Diário de Ester #1 A surra

Era sete da manhã. Meu primeiro dia de aula. Finalmente tinha chegado a quinta série e eu estava feliz por ainda contar com as antigas amigas e amigos do ano que passou.

Agora já passam seis meses desde o primeiro dia e ainda vejo esse menino, tão franzino apanhando dos "valentões" da sétima. Batem nele porque ele é pequeno, porque usa óculos ou talvez porque é inteligente.

Hoje ele sentou na mesa em que eu estava.

- Porque eles te batem?
- Porque não gosto de dar cola.
- Ué. Reclama com a diretora.
- Não adianta. Ela não faz nada.
- E com sua mãe...?
- Nada disso! Aí ela também me bate!

19.8.06

Me observando... de onde?

A cena se repete. É a mesma. Igualzinha aos outros sonhos.

Lá está ela, a menininha sentada me olhando. E eu, sem pronunciar uma palavra, curioso p’ra saber porque aqueles olhinhos tanto me perseguem de um lado para o outro.

Seus olhos singelos, seu leve sorriso no rosto. Seu cabelo castanho claro, quase um loiro angelical. A face corada e os lábios delicadamente rosados. Familiarmente sentada em cima de uma mesa alta, com as perninhas balançando, as mãos apoiadas na mesa, observando tudo que estou fazendo.

Foi então que hoje, depois de tanta perseguição, resolvi perguntar:

- Você é minha filha?
- Sou.